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domingo, 13 de setembro de 2015

As lágrimas de Potira


Muito antes de os brancos atingirem os sertões de Goiás, em busca de pedras preciosas, existiam por aquelas partes do Brasil muitas tribos indígenas, vivendo em paz ou em guerra e segundo suas crenças e hábitos.

Numa dessas tribos, que por muito tempo manteve a harmonia com seus vizinhos, viviam Potira, menina contemplada por Tupã com a formosura das flores, e Itagibá, um jovem forte e valente.

Era costume na tribo as mulheres se casarem cedo e os homens assim que se tornassem guerreiros.

Quando Potira chegou à idade do casamento, Itagibá adquiriu sua condição de guerreiro. Não havia como negar que se amavam e que tinham escolhido um ao outro. Embora outros jovens quisessem o amor da "indiazinha", nenhum ainda possuía a condição exigida para as bodas, de modo que não houve disputa, e Potira e Itagibá se uniram com muita festa.

Corria o tempo tranquilamente, sem que nada perturbasse a vida do apaixonado casal. Os curtos períodos de separação, quando Itagibá saía com os demais para caçar, tornavam os dois ainda mais unidos. Era admirável a alegria do reencontro!

Um dia, no entanto, o território da tribo foi invadido por vizinhos cobiçosos, devido à abundante caça que ali havia. E Itagibá teve que partir com os outros homens para a guerra.

Potira ficou contemplando as canoas que desciam rio abaixo, levando sua gente em armas, sem saber exatamente o que sentia, além da tristeza de se separar de seu amado por um tempo não previsto. Não chorou como as mulheres mais velhas, talvez porque nunca houvesse visto ou vivido o que sucede numa guerra.

Mas todas as tardes ia sentar-se à beira do rio, numa espera paciente e calma. Alheia aos afazeres de suas irmãs e à algazarra constante das crianças, ficava atenta, querendo ouvir o som de um remo batendo na água e ver uma canoa despontar na curva do rio, trazendo de volta seu amado. Somente retornava à taba quando o sol se punha e depois de olhar uma última vez, tentando distinguir no entardecer o perfil de Itagibá.

Foram muitas tardes iguais, com a dor da saudade aumentando pouco a pouco. Até que o canto da araponga ressoou na floresta, desta vez não para anunciar a chuva mas para prenunciar que Itagibá não voltaria, pois tinha morrido na batalha.

E, pela primeira vez, Potira chorou. Sem dizer palavra, como não haveria de fazer nunca mais, ficou à beira do rio para o resto de sua vida, soluçando tristemente. E as lágrimas que desciam pelo seu rosto sem cessar foram-se tornando sólidas e brilhantes no ar, antes de submergir na água e bater no cascalho do fundo.

Dizem que Tupã, condoído com tanto sofrimento, transformou suas lágrimas em diamantes, para perpetuar a lembrança daquele amor.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A Vitória-Régia


Reza a lenda que, há muito tempo, a deusa lua, Jaci, carregava as mulheres virgens das tribos indígenas e as transformava em estrelas, pendurando-as no firmamento. Um dia, uma índia chamada Naiá apaixonou-se pela lua. Ela queria ser levada pela lua. Queria ser transformada em uma das estrelas do céu. Seu sonho por isso era tão grande que tornou-se obsessão. Naiá já não comia nem bebia nada, apenas esperava a noite e perseguia incessantemente a lua, querendo ser levada por ela.

Certa noite, Naiá parou frente a um lago e, em suas águas, avistou o reflexo da sua tão amada lua. Acreditou ela que a deusa Jaci havia descido para banhar-se. Num ato de desespero, Naiá lançou-se nas águas em busca de seu sonho, mas, frustrada, afogou-se nas águas daquele lago. Jaci, comovida com o sacrifício de Naiá, resolveu torná-la uma estrela, mas uma estrela diferente. Jaci a transformou em uma "estrela das águas", a conhecida planta vitória-régia. E, por causa disso, a vitória-régia só desabrocha à noite.